sábado, 18 de maio de 2002

POLVO

                                       
                                                     
A História, dizem os entendidos, só caminha para a frente. É como se ela tivesse uma seta que apontasse somente para o futuro. Aliás, assim dizem os físicos. O futuro está à frente do nosso tempo. O presente não existe; é uma abstração da mente humana. Mas às vezes, o tempo pode tomar algum desvão e sair do seu curso normal, e por um túnel, entrar em algum desvio frustrando todas as setas e todas as leis da termodinâmica. Aí o tempo pára, ou o quê só podemos imaginar na ficção, toma um curso paralelo, que flui ao lado do tempo normal, da seta tradicional, aquela que não subverte a segunda Lei da termodinâmica. Foi o que ocorreu no Brasil em 1990. Um candidato presidencial, o Polvo, perdeu a eleição para um conterrâneo nordestino, bem educado, bem alimentado na infância e talhado para a profissão. Antes tinha sido caçador de marajás... Mas isso é outra ficção. O quê nos importa neste momento é que este caçador foi o vencedor das eleições no tempo normal, tradicional. O colorido e extravagante caçador já ludibriara muitas leis e convenções sociais, mas, faça-se justiça, nunca antes tinha violado a segunda lei da termodinâmica. Outro candidato no seu lugar, no entanto, o tinha feito. Sabemos agora, ou hoje, ou amanhã, não sei mais ao certo, por um cronista do universo paralelo ( aquele que se formou nas dobras do tempo) e por uma maneira da qual não temos a menor idéia, o quê acontecera ( ou teria acontecido): o Polvo tinha, já na sua primeira tentativa eleitoral no mundo normal, logrado se eleger presidente da República. À história que se segue, a se dar crédito a alguém que não registrou em nenhum lugar e em nenhum tempo real ou virtual a sua crônica, o leitor poderá agora, ou em qualquer tempo, ler e atribuir qualquer juízo de valor. Perceba-se o estado emocional do cronista. Há nele algo de receio, de temor, como se encontra muitas vezes no relato de pessoas que foram submetidas a grandes riscos e perigos e que somente com grande dificuldade e atribulações puderam dar luz aos seus relatos. O nosso cronista parece ter este estado de ânimo, um ânimo de correspondente de guerra.


 1994    
             
"A documentação estava completa há dias. Nada fora esquecido. Ninguém se atrasara. Sempre fora assim. Começava, então, o que de muito era aguardado com ansiedade. Partiram no avião quase vazio. O medo era grande naqueles tempos, pois muitos aviões eram abatidos em pleno vôo, alguns  até carregando feridos. Era a primeira leva de refugiados do Novo Regime. Algo histórico e antológico: intelectuais e empresários emagrecidos pelo cativeiro voltavam aos aviões de carreira com destino a Paris e Londres, só que sem a passagem de volta". Assim começava a crônica de um colega jornalista.
O governo encastelado na Fábrica, este era o nome da nova capital, comemorava junto a generais repletos de condecorações no peito. Alguns ostentavam a Cruz Vermelha , recentemente instituída pelas milícias camponesas. Alguns generais eram também muito recentes. Todos curtiam em saborosa algazarra a partida do avião, que, aliás, era mostrada para todo o país pela televisão. A comemoração era tão ruidosa que chegava a contrariar o Polvo , o grande vitorioso da eleição passada. Era do seu costume não deixar transparecer o humor, muito menos em companhia de militares e políticos de destaque. Afinal, eram todos eles, recém saídos do primeiro plano da vida nacional, acostumados à um vida de prazeres seletos, muito ao contrário do sisudo Polvo. A carranca, reforçada pela barba espessa , ajudava a compor a imagem que ele gostava de mostrar. A dureza do regime tinha que estar afinada com aquela auto-imagem deausteridade, mas que na verdade procurava esconder as limitações do Polvo, ex-camponês rude e iletrado. O antigo apelido de Nove Dedos, agora banido das conversas pelo medo da brutal repressão, condizia melhor com a sua verdadeira personalidade autoritária e repressora.
O mundo acompanhava com interesse e curiosidade. No entanto, a curiosidade era maior do que o interesse. O país nestes últimos anos do século era visto com perplexidade pelos parceiros comerciais. Tratados diplomáticos, acordos econômicos, convenções de fronteira, corriam o risco de desaparecer por obra do Novo Regime. Não que o país fosse importante ou  decisivo para a economia mundial, ocorre, entretanto, que para os chamados observadores internacionais, o Novo Regime parecia anacrônico e ineficiente numa era de avançada tecnologia onde abstrações como democracia e ideologia populista já não existiam mais. Daí a curiosidade. Daí também a indiferença. Mas o Polvo   parecia não notar o quadro internacional, pois muitos eram os problemas internos; fome, deseducação crescente da população, desemprego, violência, e, por último, medo da Justiça, instituição criada pelo Novo Regime ( e que conservou o antigo nome por puro desejo de desforra ), que estava por ser conhecida pelos seus ritos sumaríssimos. Neles, todo indiciado era levado à presença de três juizes togados e barbudos, não por coincidência, severos e austeros. Em três dias era proferida uma sentença, em geral condenatória e pecuniária. Com isto se vislumbrava um Estado, além de forte, muito rico. As cadeias foram esvaziadas no primeiro dia do governo do Polvo. Ninguém que já estivesse preso sob a lei anterior deveria permanecer na cadeia. Na ideologia vencedora, os crimes, os seus respectivos processos, e as suas conseqüências jurídicas tinham que ser revistos. E assim foi.
A vida cultural, entretanto, minguava. Não que isso fosse conseqüência do governo, não. O fato é que os intelectuais ficaram sem informação insuspeita - aquela história da queda do satélite não fora muito bem contada, se é que de fato realmente acontecera. Acreditar cegamente  nas informações oficiais seria imperdoável. A imprensa teimava em ser livre, por isso o descontentamento. De repente, jornais e revistas de destaque como a Hora Final e o Olho, que circulavam nacionalmente, tiveram seus quadros funcionais acrescidos de pessoas estranhas à profissão. Matérias que davam conta dos acontecimentos nacionais não eram publicadas, fotos que mostravam autoridades fiéis ao Polvo, eram convenientemente editadas. Em suma, havia um clima denso, como um ar pesado e opressivo. Não admiraria que a cultura nacional estivesse em crise. Os antigos cineastas só sabiam fazer filmes contra militares e empresários. As peças de teatro eram insípidas e incolores. Havia uma nostalgia de emoções políticas. O país se despolitizara sem partidos e sem parlamento . Os advogados que antigamente saiam às ruas gritando slogans juvenis eram todos funcionários estatais. Não conheciam o risco de perder uma única  causa.
 Ao contrário, na vida econômica, que afinal é o que interessa à massa, tudo parecia correr bem. As rações chegavam para todos. Os armazéns públicos estavam abarrotados de vegetais e grãos. Funcionava perfeitamente a campanha estatal que apregoava os benefícios da vida vegetariana, denunciando os  hábitos carnívoros. Voluntários vindo do nordeste do país ensinavam aos nacionais como fazer jejuns. Eram abençoados aqueles que ruminavam fibras  vegetais distribuídas gratuitamente. Estas sessões de ruminação eram acompanhadas de toadas sertanejas que faziam a alegria de enormes populações. Os padres benziam os fardos de fibras para dar um tom divinatório ao ritual. O Polvo encontrara uma maneira perfeita de se redimir aos olhos do clero pobre. Nunca se comeu tanto verde no país. O sucesso da onda verde foi tão grande que ninguém percebeu que o povo emagreceu muito. As pastagens foram todas gradativamente substituídas por extensas plantations. Eram boatos os rumores que rebanhos bovinos eram criados em fazendas estatais para uso exclusivo do pessoal da Justiça e da Fábrica. Alguns jornalistas maledicentes que andaram publicando calúnias foram silenciados tão logo iniciou a fase educadora do governo do Polvo, - não sem antes serem obrigados a se empanturrarem de carne à vista de todos.
As instituições políticas nunca foram tão perfeitas. O Partido dos Tentáculos criava todas as leis sem o constrangimento e o atrito da discordância opositora. Era a democracia perfeita : o Polvo no poder. Correspondentes estrangeiros, que eram levados às escolas de Instrução Primária, voltavam perplexos aos seus países de origem . A razão, entretanto, daquela perplexidade, não era bem entendida pelos nacionais. O método orwelliano que se empregava pela primeira vez nas escolas do país mostrava resultados surpreendentes : nenhum aluno deixava de assistir às aulas e à Instrução. Isto não se devia ao caráter compulsório da educação orwelliana, pelo contrário, via-se, e só os cegos deixavam de ver, a alegria estampada no rosto daqueles pequenos alunos-soldados, em especial nas instruções policiais-militares. Eram jovens robustos ,bem alimentados por proteínas vegetais e raiz de mandioca, recomendação pessoal  do Polvo - na infância este fora o seu alimento favorito. Como o líder, todos completariam o terceiro e último ano de Instrução, aptos até a desempenhar, quem sabe, o governo maior da nação.
Os serviços públicos se aperfeiçoaram no governo do Polvo. A educação, finalmente toda estatal, era endeusada nas comemorações cívicas . O dia 4 de outubro, nova data nacional, dia da vitória consagradora do Polvo, reunia milhares de estudantes marchando ao som de tambores pintados com as cores dos Tentáculos. Os currículos foram mudados. Nada mais de história, geografia, português, filosofia, enfim, tudo aquilo que pudesse desviar os jovens do amor ao Polvo. Ele, quando pequeno, apanhara muito por não poder entender aquelas matérias. Estavam libertados da tirania burguesa do conhecimento milhões de pessoas. Foi o maior tratamento dos complexos de inferioridade que já se aplicou no país. A saúde pública recebeu incentivos e subsídios estatais que não mais precisavam ser aprovados e alocados nos orçamentos. Aliás, os orçamentos foram abolidos, dada a não necessidade de aprovação das contas. As pessoas adoeciam porque queriam. Os médicos, que naturalmente atendiam de graça à população, não conseguiam entender porque morria tanta gente, já que o sistema era perfeito.
A segurança pública, então, era um primor. Tropas estatais não saíam das ruas nem mesmo nas horas mortas, patrulhavam sem cessar todas as ruas e becos. Bêbados e mendigos, meninos de rua e desempregados não mais eram vistos. Teriam terminado? A imprensa estrangeira denunciava métodos fascistas, mas isto nunca se provou. A verdade é que a segurança do cidadão aumentou muito. Diminuíram sensivelmente os roubos e atentados à vida. Quem fosse preso por roubo não era encarcerado: havia um lugar inóspito no norte do país que necessitava de trabalhadores metalúrgicos, já que a metalurgia era a vocação econômica daquela região chamada Escravônia. Não consta que nenhum degredado de lá se evadisse. Alguns preferiam ser expulsos do país - esta era outra punição que substituía a prisão, - de preferência  para algum Leão Africano, campeão de exportações.
O lazer, obrigatório para a população cativa do Polvo, contou desde o início com a aprovação estatal. O governo recomendava a caça. Ela voltou a se exercer sem proibições; eram muitos os dissidentes. Virou esporte nacional, uma verdadeira febre. Conta-se que dois cassados ou caçados (não importava mais a diferença semântica), apresentados à polícia, davam direito a uma visita com todas as despesas pagas à Ilha da Fantasia, como veio a ser conhecida Fidélia. A inveja internacional  tinha lá feito fracassar a educação orwelliana; ficara o mito, a lenda de um paraíso perdido e incompreendido - isto não aconteceria na pátria do Polvo. Os imensos recursos do país finalmente deveriam levá-lo à  superação definitiva de todos os seus problemas e complexos. De uma vez por todas o país seria libertado das conseqüências gravosas da sua origem de além-mar, e, principalmente, da sua quase eterna condição ex-colonial. Finalmente um governo do Polvo resgataria a história e o destino grandioso de uma raça injustamente chamada de preguiçosa. Tal era o estímulo e recompensa dos cassadores.
 O esporte das massas, no entanto, ainda era o futebol. Era o que comovia realmente o povo. Alguns historiadores gostam de dizer que o início e o fim do Novo Regime começou em um estádio lotado. Talvez jamais se saiba, mas foi em um estádio de futebol lotado por mais de 100 mil espectadores que o Polvo deu a sua arrancada para a vitória política. A massa que se comprimia esperando seu time favorito entrar em campo, o Flamingo, delirou com a aparição do Polvo e sua claque. Bastaram algumas palavras de entusiasmo e o povo tomou uma decisão sóbria e sensata, como costuma acontecer nos campos de futebol. Saiu do estádio convencida da veracidade e coerência apresentada a ela (a massa) pela linha do Flamingo  e pela lábia do Polvo. Desde tempos imemoriais, a começar pela democrática Atenas, que as decisões políticas mais importantes são tomadas em lugares públicos,  como teatros, estádios, comícios, em suma , lugares onde a verdade sempre transparece. Platão chamava o governo das multidões de teatrocracia. Mas Platão era um exagerado, além de ser um aristocrata suspeito. Mas foi assim mesmo que o Polvo chegou ao poder. A história tem seus caminhos próprios independentemente da vontade dos historiadores, os quais relutam em admitir que ela, história, sempre se repete. Ao contrário do que pensam os intelectuais ,não há síntese - as coisas ao cabo de algum tempo sempre voltam ao mesmo lugar. Sempre  houve Polvos e Partido dos Tentáculos, porque não os haveria novamente? É da condição humana o handicap da falta de memória. E o Polvo recebeu o triunfo do povo. Em braços foi carregado. Ao poder alçado.
Na virada do século e do destino, um outro estádio lotado foi responsável, ou antes, palco de um novo evento político, que desta vez agradaria o Platão.  O Polvo já tivera seu mandato reconduzido  - o processo fora feito em segredo. Portanto, o último ano do século também foi o último ano do Polvo no poder. E este ano foi exemplar em mostrar  a fatalidade histórica. Não houve porvir, não houve tempo. Para os que gostam de causas econômicas, em respeito à memória de Max, e, levando em consideração a verdadeira natureza do processo dissolutivo das finanças do Novo Regime, a real razão da derrocada do governo do Polvo foi o excesso de trabalhadores nas atividades múltiplas da economia. As organizações trabalhistas vieram a reivindicar participação no governo de uma maneira surpreendentemente agressiva, logo elas que tinham acorrido ao chamamento do Polvo e de sua claque. Pressurosas, as massas de trabalhadores exigiram participação nos lucros da empresa, digo, do Estado. Queriam uma parte no espólio dos ricos e condenados. Grandes fortunas convertidas em ouro ou títulos públicos oriundos das desapropriações se transformaram em fomento de cobiça. Por outro lado, a concentração de riqueza feita de maneira rápida demais desequilibrou a sociedade que tinha outra expectativa. O Polvo ,quem nem sabia usar dinheiro, muito menos fortunas incalculáveis, foi acusado do crime supremo de má administração pública, o que era uma tremenda injustiça pois que ele na verdade, nem governava ,tinha até ojeriza por todos aqueles papéis, cheios de palavras difíceis.     Governar mesmo ele deixava para os acólitos, bem preparados nas universidades gratuitas.Por outro lado, como levar a culpa e a responsabilidade em um  país que já tinha a maioria do povo bem ensaiada na arte do apoio irrestrito a qualquer medida anti-capitalista. O que dera errado então? Falta de experiência, generosidade excessiva, pena dos colegas corruptos? Ou era falta de escolaridade mesmo,  pouca educação formal à antiga, falta de amigos poderosos no poder? Será que a História estava mais uma vez se vingando dos que sofrem de falta de memória, dos que atropelam a experiência tradicional em nome de aventuras totalitárias incompatíveis com o final do século? A História tem a resposta. E ela veio em um estádio de futebol lotado: em uníssono o povão reclamou por dinheiro. Dinheiro? Como alguém podia falar  em dinheiro ainda? Para quê dinheiro, para quê ele serviria no Novo Regime? O Polvo nunca tinha pensado nisso. Seus ministros, acostumados com a caritocracia ( palavra criada por um dissidente no exílio, um tal de Robert de Champs), jamais se preocuparam com o dinheiro. Tinham decretado uma moratória universal a todos os credores nos primeiros dias do governo. As moedas não mais tilintavam como metais; agora só existiam como um impresso com a efígie do grande Polvo sorrindo enigmaticamente. Estes impressos pagavam os talões de rações, compravam a entrada nos estádios públicos. Quem se recusasse a recebê-los sofria as penas da lei. O estádio estava lotado para assistir à final do campeonato internacional. Havia jornalistas de toda as partes do mundo. Não teria sido alguns  deles os responsáveis por aquela colossal manifestação de desagrado? Não teria um deles introduzido o vil metal e com isto seduzido aqueles comedores de forragem? Não se sabe. O fato é que o Polvo foi vaiado estrepitosa e vexatoriamente. Palavras como "burro", "analfabeto",  "pau-de-arara", há muito proibidas, foram ouvidas. O Polvo se retirou chorando, vencido e aturdido pela traição do seu povo. O colapso do Novo Regime foi rápido, como costumam ser sempre os últimos dias dos governos populares.
Nem se esperou o fim do  segundo mandato. Foram convocadas eleições gerais. O povo teve que reaprender o ritual democrático: aquela história de prazos, filiações partidárias livres, discursos, e até os abomináveis programas de TV.  Nenhum candidato do Partido dos Tentáculos se apresentou. Seus antigos membros procuraram abrigo nos partidos novos recém criados mas não se candidataram. Houve fraudes enormes em todo o país - a lembrança dos velhos tempos incendiou a imaginação quase embotada dos políticos. As unanimidades desapareceram nas pesquisas; não havia mais favoritos como nas últimas pseudo-eleições de 1998. Agora a disputa não era ideológica, pois os candidatos tinham o mesmo discurso. Quanto ao povo eleitor, e que aumentara significativamente com o acréscimo do voto dos militares de qualquer patente, seu ânimo logo arrefeceu ,como sempre. O processo transcorreu calmo e sereno como sempre foi na tradição do país. É a tal índole pacífica do povo, este é o motivo, dizem os mais velhos.
O novo governo que assumiu logo tratou de desfazer tudo o que o anterior tinha feito. Até algumas coisas positivas como medalhas olímpicas, médicos de graça, shows gratuitos, terminaram. O processo de alfabetização que o Polvo, ou melhor, o setor alfabetizado do seu governo, começara, foi desfeito. Todo aquele insano trabalho de decorar as cartilhas com slogans e figuras proeminentes do governo, o que alfabetizara, é inegável, muitas crianças, se perdeu. Em outras áreas e setores do país, estagnados há muitas décadas, a troca de regime não melhorou significativamente. Uma sensação de desesperança se apossou do povo através de comportamentos apáticos e indiferentes. Não havia mais movimentos de rua, as manifestações, se é que existiam, aconteciam no abrigo do lar. A imprensa nada de emocionante tinha para mostrar. Sucessivos revezes fizeram a população bater em retirada dos teatros políticos. Em meio a esse alheamento generalizado poucos notaram que os indicadores econômicos sinalizavam uma recuperação nos negócios do país. A inflação, que fora retirada também das manchetes dos jornais, começava a baixar. Em três meses ela tinha chegado aos  níveis da década de 50-60. Como isto era possível? Nada tinha sido feito, como explicar esta queda que não estava na previsão de ninguém? As causas técnicas da inflação não tinham sido atacadas, ninguém nos deu dinheiro, como então a inflação baixara?
O Polvo foi viver um retiro melancólico em Fidélia. Aprendeu a fumar charutos do tipo "cabana" e freqüentemente era visto em teatros e shows educativos como se quisesse resgatar o tempo perdido nas trevas em que sempre vivera. O tempo passou. As flores desabrocharam e voltaram a murchar. Por toda a parte ressoavam murmúrios de desagrado. Murmúrios típicos de países livres. Eram ruídos de dor e de fome, de emoção pura ou alegria. Eram ruídos. Toda a sociedade faz barulho, se deixada livre. O silêncio é a sinfonia das ditaduras e dos cemitérios. As sociedades caladas têm algum tipo de doença, sofrem alguma restrição de movimentos. Sufocam. O tempo provara e demonstrara, não mais em charadas obscuras, mas em fórmulas claras, que a causa da queda do Polvo e do Partido dos Tentáculos  era a força, a rigidez, a esclerose. Na ilha do retiro o Polvo morreria alguns anos depois de reumatismo social. O Partido dos Tentáculos foi vendido por alguns dólares.
Eram oito horas e há muito eu tinha que estar acordado. Foi o calor o que me  acordou, mas sem desconforto, pelo contrário, acordei satisfeito, descansado e feliz, com um sorriso nos lábios. Mas, ao escrever, logo se apossou de mim um estranho pressentimento que eu espero não tenha estragado esta narrativa.”

Ass.   Jorge Orvell.

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