COMO O DIABO GOSTA
Brasília, 18 de maio de 2002
▲ (English Version “LIKE EVIL LIKES”)
Nervus entrou esbaforido na sala, sem fôlego para dizer o que lhe pesava na alma: prenderam o Polvo ! Foi quando ele saia do comitê ! Uma covardia ! E morreu. A classe trabalhadora desempregada há três anos, portanto uma classe não-trabalhadora, acabara de gastar o último foguete desde a renúncia do ministro Perorricu, e já se entregava à depressão com esta má notícia. Parece mentira, dizia um militante de mais idade, mal disfarçando o seu sotaque de anarquista espanhol. Sujeira da burguesia ! Vamos à luta ! Marquem um reunião logo, ou melhor, não desmarquem a de ontem por esta hora, gritou para o tesoureiro. Temos que tirar o Polvo da cadeia! E lá se foram eles, desorientados, portanto a lugar nenhum. Só conseguiam murmurar por entre dentes a indignação de que estavam tomados. No mais, espumavam.
As últimas notícias davam conta que o Polvo estava no Coy-Toddy, incomunicável, o que não deixava de ser terrível para quem está em campanha e precisa falar, mesmo que não tenha nada para dizer. Como se sabe, desde o governo de Ritamar Branco, as dependências do Coy-Toddy são guardadas a sete chaves. Nada, no entanto, comparável às condições tenebrosas das prisões dos seus antecessores - a grande novidade eram os choques elétricos a laser e a piscina de água quente para afogar presos recalcitrantes. E o pobre Polvo poderia estar lá, aliás, era consenso que estava de fato. "Menas"mal que era na água, o seu elemento.O que fizera o Polvo ? Ninguém perguntara até então. Isto não deixa de surpreender. Quem o prendera ? Era outra questão não respondida. A militância suspeitava que tinha algo a ver com aquele misterioso aparelho de som importado, ainda que não passasse de coisa superada, isto desde de 1989. As hipóteses eram poucas, absurdamente poucas. Como se pode botar alguém tão bem nas pesquisas na cadeia ? Se fosse um candidato nanico, um Andréas, se entenderia. Mas não, era o Polvo, o candidato do povo. Nem o seu adversário mais importante, o CDF, teria coragem para isto. Até, dizem as boas línguas, eram farinhas do mesmo saco, antigos companheiro de lutas. Era preciso encontrar um culpado pela prisão; pelo menos um bode espiatório com "s" tinha que ser encontrado. Talvez o Brizol, lembram, o vice ? Vendeta pura e simples, taí a explicação. Mas ela não resistia a uma análise mais profunda, o próprio até já estava recolhido às suas fazendas em Jabotis, e não tava nem aí para a candidatura do Polvo.
Passou-se o primeiro dia e nada. O segundo e nada. E quando tudo já se encaminhava para o pior, se descobriu que o pior era a absoluta imobilidade das pesquisas. O mais prestigiado dos institutos, o Galope, não alterara nenhum número.Em outras palavras, ninguém dera pela falta do Polvo. A renúncia do ministro Perorricu, que provocara euforia no comitê do Polvo, se esgotava com o desaparecimento abrupto do Polvo. Oficialmente, é sempre bom lembrar, oficialmente, o Polvo era dado como desaparecido pelo governo. Ele também não saira do país, garantia a polícia paraguaia. O governador do Morro do Boréu colocara num balão uma mensagem dizendo que as narcoautoridades do Morro não tinham nada a ver com o pato.
Não se confirmara que ele estivesse preso no Coy-Toddy, ou em qualquer outra dependência do governo Ritamar Branco. Este, diga-se de passagem, foi exemplar em tirar o seu da estaca, ao afirmar sem muita categoria, que ele seria o primeiro a saber, aliás, como em tudo. Ele dizia que o problema era dos sindicatos - em especial da Tuc, e da própria militância moluscular ( neologismo criado à semelhança de popular). Ritamar ironizava com o chefe da Tuc, o Aimorezinho Lingua Pegada.
Faltavam 10 dias para a eleição. O programa (pago pelo governo) eleitoral gratuito do rádio e da televisão continuava firme. Dia após dia, milhares de sacos eram torrados sem escrúpulos pelas autoridades, mesmo após a renúncia do ministro. E o Polvo nada. O Marketante, vice do Polvo, já não tinha mais de onde tirar tanta doutrina econômica convincente, apesar de ele ter sido um dos luminares nesta área até há pouco tempo atrás. Era notório que o seu contato muito próximo com o Polvo lhe dera "menas" compreensão dos problemas econômicos. Pesava contra, também, que ele se parecia demais com o substituto do ministro Perorricu, o Tiro Tomes. A calva já se lhes possuira, denunciando a gravidade dos pepinos assumidos por ambos. Para o Marketante, duro mesmo era dizer "menas"a toda hora para o eleitorado do Polvo; já para o Tiro Tomes o problema era a cara de mocinho que ele tinha para enfrentar bandidos de tanto poder econômico.
Seqüestro. Tese muito provável. Certo. Mas por quem ? Quem aguentaria aquele humor refinado, aquela finesse, aquele bom gosto à mesa, em suma, quem aguentaria manter o Polvo no cativeiro por tanto tempo sem sofrer qualquer handicap intelectual, ou o que é pior, aguentando ouvir aquela cantilena interminável de economia de arrochos e salários aprendida a duras penas de antigos colegas metalúrgicos ? Quem?
Assassinato. Outra tese ventilada. A mando de quem ? E o corpo ? Sem cadáver não há crime, é o crime perfeito. A militância, precavida, vasculhava o Tietê sem resultados.
Chegou finalmente o dia das eleições. Haveria primeiro turno, menos mal. Se descobriu neste dia que a presença em carne e osso do Polvo ( licensa poética para descrever um invertebrado) não era necessária. Não havia nada na lei eleitoral que obrigasse o candidato a estar presente na eleição, desde que ele justificasse depois. Não se cogitava, como se depreende, da necessidade do segundo turno. Neste sim, o Polvo teria que garantir presença, até porque o eleitorado do Polvo é muito materialista, terra-a-terra, e não iria embarcar nesta de presença espiritual com tanto em jogo.
A apuração transcorreu em calma, isto é, houve roubalheira de todos os lados e ninguém reclamou. Só da lentidão. Foi difícil fazer entender àqueles milhões de analfabetos que ninguém lhes pagaria nada pelo voto, pelo menos não no dia da eleição. Teve gente que levou sacola esperando voltar carregado.Isto atrasou muito a apuração. E depois de finalmente, finalmente chegou o dia do anúncio dos vitoriosos, dos dois que iriam para o segundo turno.
O Polvo ficou com 33% dos votos; CDF 32 %, somando os insignificantes Inércia, Atim Piazzola, General Desgraça, 12%. O Andréas fez gloriosos 23%, atestando o alto nível do eleitorado que compreendeu a mensagem dele. Quem sabe nas próximas o povo aprende definitivamente. A matemática bizarra do tribunal teve ainda que ajeitar mais uns 15% de nulos e brancos, com o que chegou-se a inacreditáveis 115 % de votos. Democracia demais dá nisto: 115% de votos apurados ! Mas a gente sabe que o tribunal deixou de contar mais uns 17 % de votos do interior do Amazonas. Desconfia-se que estes votos eram da eleição passada. Quase todos eram do candidato Vermelhinho, lembram dele ? Protestos, impugnações, esperneios e manifestações de toda a ordem, e fora dela, pautaram os dias seguintes à revelação dos resultados finais, mas não oficiais, pois muitos votos no exterior não tinham sido computados. Votos com certeza do candidato Polvo. Como se sabe, a classe trabalhadora emigrou em massa para o primeiro mundo depois da última porrada. Mas como nada termina neste país de sonhos e pesadelos, aceitou-se como definitiva a posição alcançada pelos dois primeiros colocados.
E o Polvo nada. Teria renunciado ? Será que se considerava eleito com 33 %, ou apenas satisfeito com este número, de tal sorte que voltara para sua terra, Garanhões, orgulhoso do feito histórico? Ou tudo não passava de quimera, maracutaia do destino, ou reza pegadeira de padre nordestino ? Do CDF não se esperaria iguais sortilégios, até porque o homem é ateu. Não, não tinha sido obra do CDF, não era do seu estilo. Teria o Partido dos Tentáculos encomendado algum trabalhinho no Haiti, e o tiro saira pela culatra, escafedendo o próprio Polvo ? Ou as bahianas do governador tinham mandiga mais forte ?
Há dois dias do segundo turno, com todos os candidatos apoiando o CDF, exceção do Andréas que montara um instituto de pesquisas só para ele ( comprara 10 segundos no horário pobre da Rede Bobo para continuar na disputa), alguém muito chegado à cúpula do Partido dos Tentáculos lembrou-se do antigo ministro da economia do Ritamar Branco. Lembrou ainda dos seus hábitos dominicais e do seu comportamento - quando portava escrúpulos consigo -, de frequentar os quase colegas beneditinos ( eleitores da senadora Bendita do Rio de Janeiro) no mosteiro. Dois próceres ( lembram esta palavra?) do Partido fizeram um esforço extremo e foram lá, protegendo-se de eventuais respingos de água benta. Vasculharam os aposentos cuidadosamente, é claro com o consentimento dos monges. No porão, além dos ferros de tortura e manuais de guerrilha, encontraram material de campanha do CDF e do Polvo. Isto foi muito difícil de explicar. Até agora a melhor explicação para se encontrar material dos dois candidatos rivais era que o ex-ministro em off ostentava as cores do Polvo; em on line, usava as cores do outro. Ou era o contrário, o off virou on, e o ministro se atrapalhou todo, a Rede Bobo bobeou, e ele foi literalmente para o espaço. Os dois próceres continuaram as buscas até que encontraram o que queriam: o Polvo.
Não era mais o mesmo homem. Raspara o bigode e mandara cortar um pouco da corda vocal esquerda - sempre a esquerda -, para afinar a voz e poder cantar com os castratti preferidos do Perorricu. Isto não era tudo. A fé tinha mudado. Agora acreditava piamente no neoliberalismo e na incapacidade de se distribuir a renda por igual, como sempre afirmaram os seus adversários. O próprio Perorricu também estava mudado. A sua voz engrossara. Os gestos delicados davam lugar a socos na mesa; os escrúpulos estavam de volta. Suas antigas ligações com a Igreja, que eram de ordem mais espiritual, ficaram bem materiais, até materialistas. Instado a falar da sua companhia, ele, assim que viu um microfone, derramou luz sobre a escuridão: o Polvo pedira asilo no convento, mais do que isto, confessara para o ex-ministro que tinha medo da cúpula das elites do Partido. Enfim, temia um expurgo igual ao do Brizol. Pelo menos isto era uma primeira e dolorosa aproximação da verdade. Para saber mais era preciso ouvir da própria voz delicada do Polvo as suas motivações mais íntimas. A militância moluscular perguntaria sobre os compromisso da campanha. Estariam valendo ainda as promessas esparramadas por navio, ônibus, avião, trem, a pé, a jegue, a cavalo ? O cantinho de terra ( de preferência na superfície) para cada um? Um lugarzinho no céu avalizados pela CNPP ? Um salário-mínimo de US$ 100,00 pagos em reais ? Confirmaria isto o Polvo, ou não ? E o segundo turno, era preciso ganhá-lo. Até com o ex-ministro no palanque, e daí ? O CDF faria todas as alianças e conchavos e acordos e coalizões e arreglos e coligações e combinações e etc., o Polvo faria igual ?