sexta-feira, 5 de abril de 2002

Fundamentalismo Romárico



Já estamos no terceiro milênio e a humanidade não pára de criar religiões consagrando e sacralizando posições, opiniões, teses, ou meros chutes sem direção no gol adversário. No Oriente Próximo (deles)  as religiões encontram-se em uma encruzilhada, ou se quiserem, em uma cruzada, que envolve as três fés do grupo abraâmico: o islamismo, o judaísmo e o cristianismo. O mundo perplexo, cujo estarrecimento parece não encontrar limites, assiste em suas casas o espetáculo da intolerância religiosa de duas destas fés.
Aqui no Brasil, abstraindo a fé petista e seus missionários revolucionários do MST, que recentemente estabeleceu alianças (os termos concretos ainda não são conhecidos) com um dos seus inspiradores, Arafat, o que, porém, mais ocupa as manchetes dos jornais, os comentários, e as tvtelas do Big Brother (aquelas que você ainda pode desligar!), é o recém criado culto do romarismo.
Nascido no Rio de Janeiro, mais exatamente nas praias ensolaradas onde se pratica o fútilvolei, como se sabe esporte fundamental para o espírito e o corpo, por estimular o dever, o trabalho coletivo, e o sacrifício, virtudes eminentemente cariocas, o romarismo atinge neste ano eleitoral e de copa do mundo proporções de dar inveja ao conflito israelense-palestino.
Ainda não foram vistos blindados nas areias de Copacabana, Ipanema, ou na rua da Alfândega (sede da CBF),  mas circulam insistentes rumores veiculados na imprensa nacional que cobre o confronto das facções romaristas e anti-romaristas, que são ouvidas amiúde instruções militares e gritos de ordem. Dizem que outros tipos de agressões vêm sendo perpetrados sem que o pessoal dos direitos humanos dê a mínima bola. Não houve até agora a intervenção (ou invasão) da CNBB nem qualquer manifestação de ONGs globalizadoras. Excetuando-se uma tímida insinuação presidencial (ele é fraco em tudo!) em prol do romarismo, mas que não assustou o quartel-general do Big Phil, nada mais se viu que pudesse resolver o conflito.
 Os dois lados não param de se acusar mutuamente. Este confronto nacional já vem se estendendo há meses. O último episódio do choro do Romário na tvtela, entretanto, deu muito o quê falar. Como não poderia deixar de ser já apareceram versões que tentam explicar o fato. Há os que defendem que as cenas de ontem do Romário choramingando nas tvtelas e as palavras do protagonista (palavra da moda dos neocomunistas de Porto Alegre), foram arrancadas depois de torturas inomináveis. Segundo esta versão, Romário teria sido torturado por agentes do Mossad a serviço do Big Phil. A auto-humilhação do baixinho não seria assim tão auto. O outro lado, anti-romarista, afirma que aquelas cenas de humilhação pública, de declaração de amor ao Big Phil seriam já os primórdios de um  estado totalitário que se avizinha. Romário assim teria sido submetido a algumas sessões de lavagem cerebral, iguaizinhas as que o povo brasileiro vem sofrendo há algum tempo. A diferença é que o povo brasileiro não pode convocar catárticas entrevistas coletivas!
Objetivamente, sem entrar nem sair do mérito, a tvtela mostrava atrás de Romário agentes especiais que procuravam ocultar o rosto à maneira dos arapongas do Serra. É muito rápido, mas dá para ver também, Eurico Miranda atrás de Romário. Não se percebe, é justo registrar, que ele apontasse alguma arma para obrigar o Romário a dizer aquelas coisas todas – que ele iria se concentrar, fazer educação física, não pular o muro da concentração de noite, resistir ao assédio desinteressado das fãs e, principalmente, não usar o celular, talvez o maior dos crimes de hoje em dia – vejam o precedente do PCC e do CV nos presídios. Como todo mundo sabe, somente por tortura o Romário diria ou insinuaria aquelas coisas todas completamente opostas aos seus valores e aos princípios do fútilvoley carioca.
Em outro momento Romário é visto saindo – observadores registraram que foi para enxugar as lágrimas -, mas outros mais maledicentes afirmam que Romário nos bastidores tomou algum Coca-Cola, digamos, não muito politicamente correta. O fato é que ele voltou com mais imagem, e chorou outras duas vezes pedindo desculpas coletivas. Mas também ninguém ouviu dele que ele iria ajudar na marcação!

Não dá ainda para dizer quem está dizendo a verdade, ou mentindo. Aliás, nesta questão religiosa a verdade é sempre a primeira a morrer. Resta-nos esperar a magnanimidade do Big Phil dizendo: Big Phil wants you, Romário! Só então saberemos se o seu coração é aquela dureza toda de que o acusam os romaristas, ou se ele é uma compassion people, como gosta de dizer o Bush F°. Aguardemos o próximo alistamento.

Carlos Alberto Reis Lima
Médico
Amaral Ferrador/RS

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